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Artesanato goiano conquista o Papa Francisco

A artesã prestigia as matérias-primas do cerrado oferecendo um destino nobre a palhas de milho

Peças de uma artesã do distrito de Olhos D’água, em Alexânia, a 140 km de Goiânia receberam reconhecimento internacional e foram parar nas mãos do Papa Francisco que recebeu de presente uma linda imagem sagra feita de palha de milho.

    As peças são feitas por Maria de Fátima Dutra Bastos, mas em Olhos D’agua, todos a conhecem como Fatinha, o apelido veio de infância. E por falar em infância foi menina que ela aprendeu a fazer bonequinhas de palha de milho e logo vieram as peças sagras, que a ajudaram a sustentar a família.

    Fatinha cresceu em meio a tradição artesanal mantida pelos moradores do pequeno povoado de Olhos d’Água. A avó Maria das Dores Pereira Dutra, e sua mãe, Ana da Silva Oliveira eram tecelãs, faziam produtos de uso doméstico. Produzia-se de tudo, não comprava-se nada. Época muito difícil, e as crianças não podiam comprar brinquedos.

   De família pobre e sem dinheiro para uma boneca, Fatinha passou a produzi-las com a palha de milho que lidava ao cuidar das galinhas e animais. Em 1974 a educadora Lais Aderne criou em Olhos d’Água a “Feira do Troca”: identificou mestres artesãos, resgatou fazeres tradicionais da população nativa e criou um canal de escoamento para a produção artesanal, valendo-se do costume local que tinha como forma de comercialização o escambo. Trocavam-se roupas, sapatos, utensílios domésticos usados, trazidos pelos visitantes de cidades vizinhas, por produtos do vilarejo: artesanato e ítens da agricultura local. Uniram-se duas práticas tradicionais da comunidade, o escambo e o artesanato de raiz. Com o passar do tempo, se consolidou como grande evento turístico com uma agenda cultural rica e variada: música sertaneja de raiz, moda de viola, danças tradicionais como o catira, teatro de mamulengo, contação de “causos” e histórias e gastronomia local, como galinhada, galinha com pequi, empadão goiano, frango com gueiroba, pamonha, caldo e engrossado de milho. A troca por necessidade não mais existia. Permanecia, no entanto, a tradição da troca justa.

“Todos juntos promovem uma operação que é das mais antigas do mundo: a “feira de troca”. E com isso fazem vibrar a pequena comunidade.” Carlos Drummond de Andrade sobre a Feira do Troca.

Fatinha tinha 15 anos. Começou a fazer bonecas de palha e trocar. O fato de serem todos muito religiosos no local, a conduziu para a arte sacra. A mãe tinha presépios, adultos e crianças rezavam o terço diariamente. Mais tarde casou, teve filhos e começou a tocar com o marido a tecelagem da família, uma tradição familiar. Mas seguia lidando com a palha, em dúvida ao que se dedicar. Ganhava prêmios pelos presépios que criava e Lais e a artista Nalva Aguiar a incentivavam para que deixasse a tecelagem com Beto pois tinha um talento único com a palha.

A artesã prestigia as matérias-primas do cerrado oferecendo um destino nobre a palhas de milho, de bananeira, buchas, cabaças, sementes, flores secas e outros, os quais transforma em arte. Mora na roça, em um lugar bem calmo e afastado da cidade mas é na antiga casa da avó, na praça matriz, bem em frente a igreja onde tem sua loja e atelier e conta com a ajuda do filho Gabriel.

Por meio de sua simplicidade, persistência e coragem, a artesã mostrou para a comunidade em que vive que, sustentados pela valorização do trabalho comunitário e do artesanato, poderiam melhorar a vida de todos. “Em todo lugar vc nunca chega sozinho. Sempre há gente pelo caminho lhe ajudando a chegar”. Com o resgate de práticas tradicionais, como a tecelagem, o tingimento de tecidos e o manuseio das palhas, Fatinha leva o nome do acanhado povoado e de seu povo para o mundo, afirmando o valor e a importância do trabalho artesanal e genuinamente brasileiro.

Fonte: Artesanato Brasileiro / Agência Sebrae

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