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Coluna – Você ainda acredita em polarização no futebol brasileiro?

O discurso é antigo: as verbas da TV, maiores para Flamengo e Corinthians, iriam prejudicar o equilíbrio das disputas nacionais e fazer do Campeonato Brasileiro uma cópia de muitos campeonatos europeus, em que apenas dois times brigam pelo título, ano após ano. Discurso, aliás, sempre combatido aqui e por muitos economistas e estudiosos das finanças do futebol, que alertam, há anos, sobre a necessidade de uma boa administração, com a recusa de ceder aos “caprichos” do torcedor.

E que “caprichos” seriam esses? Brigar sempre por títulos e montar equipes cada vez mais fortes. Que, obviamente, é o sonho de qualquer clube de futebol e o desejo de sempre das torcidas. Mas desde o momento em que a profissionalização foi se aprimorando na indústria do futebol, e que as falhas administrativas se mostraram cada vez mais decisivas no desempenho de um time dentro de campo, as ambições passaram a ser distintas, as metas se ajustaram em patamares diferentes e quem não se adequar ao momento vai descer a ladeira, em vez de subir com cautela e firmeza.

E se algum dia o dinheiro da TV teve influência, atualmente está mais do que provado que não funciona assim. E aí está o Fortaleza, pela primeira vez numa semifinal de Copa do Brasil e em terceiro lugar no Brasileirão, podendo bater o recorde histórico do Vitória, que chegou aos 59 pontos e em quinto lugar no Brasileirão de 2013, até hoje a melhor campanha de um time nordestino na era dos pontos corridos.

Se olharmos os últimos dez anos da Copa do Brasil, tivemos 11 equipes diferentes nas finais. E dessas, sete foram campeãs. Onde há supremacia? Quando pensamos em Campeonato Brasileiro, nesses mesmos dez anos, foram cinco campeões diferentes e outras seis equipes chegaram na segunda posição, num total também de 11. Curiosamente, apenas duas vezes uma mesma equipe ocupou uma das duas posições nas duas competições – o Vasco foi campeão da Copa do Brasil e vice do Brasileirão em 2011, posições invertidas às do Cruzeiro, em 2014. Cadê a hegemonia?

Vejam que nem o Flamengo, nem o Corinthians, listados lá em cima, conseguiram esse desempenho. A respeito desses dois clubes, aliás, o Timão paulista ganhou três Brasileiros e soma um vice na Copa do Brasil; o Rubro-Negro carioca tem uma Copa do Brasil e um vice-campeonato, dois Brasileiros e um vice-campeonato. Você acha que é muito? Então, como explicar que o Cruzeiro ganhou duas Copas do Brasil e um vice-campeonato e dois Brasileiros?

E aqui voltamos à questão do “capricho”. Até que ponto o Cruzeiro extrapolou suas metas, a ponto de hoje estar a um passo de disputar a Série B pelo terceiro ano seguido? E por que, nos últimos três anos, o Corinthians, grande campeão da década 2011/20, alcançou no máximo um 8º lugar em 2019, ficando em 13º (2018) e 12º (2020), longe de qualquer disputa de título?

Nesses mesmos três últimos anos o Flamengo disputou o título com Palmeiras (perdeu em 2018), Santos e Internacional (venceu em 2019 e 2020, respectivamente). Terá sido exclusivamente por conta das verbas da TV?

Não mesmo, até porque o Rubro-Negro de novo está buscando o Brasileirão, agora contra o Atlético-MG. Que aliás está com ele, e com o Fortaleza, na caça ao título da Copa do Brasil – o Athletico-PR é o outro semifinalista.

Vocês lembram que um dia, num passado distante, houve o Clube dos 13? Pois bem, se as Séries A e B acabassem hoje, Grêmio, Vasco e Cruzeiro estariam na Segundona de 2022; Fortaleza, Bragantino e Cuiabá disputariam a Copa Libertadores. Não é culpa das cotas da TV.

Sergio du Bocage é apresentador do programa No Mundo da Bola, da TV Brasil

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