20°C
Overcast clouds

Como está a saúde mental das pessoas com o prolongamento da pandemia?

Não temos a menor dúvida que 2020 está sendo um dos anos mais difíceis na história da humanidade. A grande pandemia do coronavírus trouxe um caos na saúde física de milhões de pessoas no mundo todo e também na saúde mental. Mas como lidarmos como esta triste realidade? Para responder estas e outras questões a equipe do Giro Goiás bateu um papo com o psicólogo comportamental e professor universitário, Dr. Vinicius Xavier.

   Giro Goiás:  A reabertura e a volta ao convívio nas ruas, após passado o momento de isolamento e seus temores, agora os medos são outros: como vai ser o novo normal? O que é normal? Como vai ser a vida daqui em diante?

Dr. Vinicius Xavier – No que diz respeito a psicologia, ao comportamento humano, três questões são essenciais pra nós: a forma como o indivíduo pensa e suas crenças; a forma como ele vai se sentir diante de suas situações e também do seu comportamento. Diante de um evento, todos nós emitimos avaliações e esta pandemia impactou a vida de todo o mundo. Evidentemente no que tange a cultura de um grupo ou de uma nação alguma questões vão mudar e na questão do comportamento individual também haverá mudanças. Tudo isso vai fazer com que tenhamos uma nova postura diante das situações. Como eu disse, se você tem uma avaliação positiva ou negativa da situação, isso vai influenciar o que você vai fazer. Desta forma as questões relacionadas ao que foi alterado por contas das questões de pandemia elas faram toda diferença em nós.

O que aconteceu conosco foi uma exposição direta a um situação de grande risco, que promoveu em nós um impacto que nós podemos chamar de aprendizagem e isso fez com tivemos que mudar diante das situações. A partir de agora, como todo trauma grande deixa cicatrizes nós teremos uma forma diferente de nos comportar diante de situações que antes fazíamos de outra maneira.

Giro Goiás: A população está preparada para o “Novo Normal”?

Dr. Vinicius Xavier – A melhor pergunta não é essa. A pergunta adequada é: O que acontecerá com aquele que não está preparado com o que vem de novo por aí? Certamente ele vai sucumbir. É assim na natureza; aqueles que não estão preparados, que não têm flexibilidade com as ferramentas adequadas para se adaptarem, de certa forma sofrem impactos duros. Aqueles que não estão preparados vão sofrer consequências danosas, sejam elas no campo emocional, lidando com frustrações, com medo, adversidades da situação, sejam elas comportamentais, porque não terão as ferramentas para lidar com a situação, ou seja, elas cognitivas, porque serão assolados por crenças que vão atrapalhar   na condução da sua vida. A população está preparada? Não sei, mas aqueles que não estiverem sofrerão duras consequências. Há maneiras adequadas de se preparar? Sim, através da educação, da disciplina e mudanças de hábitos, mas não posso afirmar se a população está preparada.

Giro Goiás: Como está a saúde mental da população num cenário de mortes, notícias negativas, lutos na família, isolamento social e falta de perspectiva para o futuro?

  Dr. Vinicius Xavier –  O impacto que este vírus trouxe foi enorme, porque ficamos vulnerareis diante desta situação e diante de vulnerabilidade muitos de nós agimos de uma forma muito disfuncional. É nestes momentos de vulnerabilidades que surgem transtornos de humor como depressão, ansiedade, como por exemplo, ansiedade generalizada ou pânico. Então são nestes momentos que são acionados em nós esquemas que fazem com que tenhamos reações estremas frente ao convívio com os outros e até mesmo medidas relacionadas a nós mesmos. Então os impactos na saúde mental da população foram enormes diante deste advento inesperado, que foi a pandemia e diante da falta de recursos que todos nós estamos vivenciando. Os consultórios psicológicos e psiquiátricos ficaram abarrotados de pessoas com estas reações inadequadas frente a esta situação de vulnerabilidade. Esta é uma realidade que nós estamos tendo como profissionais de saúde, estamos tendo que lidar cotidianamente com pessoas vulneráveis, manifestações e disfunções diante deste transtorno.

Giro Goiás: A ONU, Organização Mundial das Nações Unidades alertou para um aumento de sofrimentos psicológicos atrelados à covid-19 e pediu a governos, sociedade civil e autoridades de saúde que atendam urgentemente às necessidades de saúde mental em meio à pandemia do coronavírus. Como o senhor vê essa preocupação da ONU, e como autoridades competentes podem agir nesse momento?

     Dr. Vinicius Xavier – Diante de um contexto de vulnerabilidade você tem experiências bastantes negativas como medo, ansiedade, depressão. Isso faz como que estejamos numa situação que a depender do grau e da intensidade, o impacto sobre a nossa vida, vamos precisar de auxilio psicológico. Então, a ONU já atenta com todos os dados que tem, do impacto que esta pandemia pode gerar na vida dos indivíduos, alertou os governantes. Só que diante da urgência da situação, nós podemos como profissionais de saúde mental perceber que nem todo cuidado foi dado as questões relacionadas a saúde mental, atribuo isso em partes por conta da emergência dos cuidados da natureza física.

Acredito que quando passar essa onda, frente ao impacto duradouro das doenças mentais do repertorio do indivíduo a uma atenção maior terá que ser dada por parte dos nossos governantes, porque os impactos ficarão. Quantas pessoas viera aí de lutos mau resolvidos porque não conseguiram visitar, enterrar seus familiares ou quantas pessoas sofrerão de transtorno de ansiedade generalizada por conta do trauma gerado ou por essas questões relacionadas a pandemia ou quantas pessoas terão que lidar com transtornos de humor, como exemplo, depressão, ocasionada pelas perdas e a desesperança promovido nele por conta dessa questão pandêmica também? Então acredito que a atenção ainda será dada, mas no momento ainda é precária, mas espero eu que com muita expectativa e esperança que esta situação seja revertida ao longo tempo, até porque estes impactos ficarão e merecerão atenção daqueles que são de responsabilidade.

 

Giro Goiás: Segundo ainda a ONU as pessoas que mais precisam de ajuda são os profissionais de saúde, idosos, adolescentes, jovens e aqueles com condições de saúde mental preexistentes, além dos envolvidos em conflitos e crises. Essas pessoas estão buscando tratamento psicológico?

Dr. Vinicius Xavier – Eu percebo que a busca aumentou, porém não são todas as pessoas que têm acesso a rede de assistência pública da saúde mental. E ela neste momento está com colapso, há entendimento da busca da presença física dos serviços, os profissionais de saúde estão sobrecarregados e muitos não têm condições de tirarem um tempo para cuidar da saúde mental, porque estão longe, inclusive das suas famílias, então vejam o impacto que será gerado na população, falo agora dos profissionais de saúde que deveria agora merecer uma atenção especial, mas a situação caótica do sistema de saúde promove uma sobrecarga, primeiro por conta da grande demanda da população e segundo pela necessidades daqueles que estão infectados. Então um serviço que já era precário agora em colapso fica muito mais difícil atender as demandas da população nesta ocasião.

Imagino que ao passar dessa pandemia, o efeito danoso da sobrecarga de trabalho sobre os profissionais de saúde vai ser muito sério, uma doença de trabalho muito comum em situações de estresse que é o bournaut pode acometer muitos os profissionais de saúde que estão na linha de frente hoje, como técnicos, enfermeiros, médicos, administrativos e relacionados a segurança como um todo. Estes profissionais vão precisar de um auxilio importante no futuro; agora por busca espontânea muitos não têm recursos, nem tempo ou disponibilidade dos órgãos para buscar o tratamento.

 Giro Goiás :E os psicólogos como estão atuando ao meio a essa pandemia?

   Dr. Vinicius Xavier – Estão atuando em duas frentes: numa intervenção assistencial aqueles que estão internados nos hospitais, buscando tratamento para a covid-19, fazendo essa ponte entre o profissional e a família. E o trabalho do psicólogo hospitalar hoje é importantíssimo porque ele funciona como essa ponte entre o familiar que está internado e aquele outro familiar que por razões óbvias são impedidos de fazer a visita, por conta da questão pandêmica. Ele estão fazendo este trabalho importantíssimo de manejo da ansiedade do doente, nas intervenções que são feitas para que o paciente possa encarar melhor o tratamento.

Nós que atendemos nas clínicas psicológicas ou nas unidades dos Capes ou em outros departamentos de saúde comunitária estamos fazendo esse trabalho de tratamento dos indivíduos que estão acometidos dos males psicológicos e mentais que a pandemia vem trazendo, além daqueles que já tinham seu transtorno mental pré adquirido, que foi intensificado agora nesse período.

Giro Goiás: Casos de depressão, ansiedades aumentaram? E os que estavam em tratamento estão conseguindo manter o equilíbrio psíquico dos pacientes?

Dr. Vinicius Xavier – As demandas relacionadas a diversos transtornos aumentaram e muito. Alguns aumentaram porque já possuíam, imagina um ansioso em um situação de perigo como está, ou um depressivo diante de uma doença em que você não tem medicamentos, vacinas e nem um protocolo estabelecido? A desesperança dele é acionada ali e ele vai esperar um pior, catastrófico dessa situação. Então é evidente que foi ampliado sim e houve também um grupo que por conta das perdas ou relacionadas ao isolamento, conflitos inerentes a esta condição de ter que obrigatoriamente está junto e longe dos reforçadores, que era distressores e presente na vida cotidiana de cada um, isso provocou conflitos de diversas naturezas, principalmente entre casais, pais e filhos, entre familiares.

Giro Goiás:  O medo da pandemia é saudável ou prejudicial?

Dr. Vinicius Xavier – O medo tem uma função que é promover em nós alerta, vigilância e uma ação para que venha sair desta situação. Então o medo da pandemia é um medo adequado. Não temos vacina, não temos medicamentos, recursos suficientes para toda a população e estamos em uma situação extremamente vulnerável. Este termo vulnerabilidade expressa muito bem a situação que estamos vivendo. Agora esse medo passa a ser prejudicial quando numa intensidade muito forte atrapalha a condição e os seus papeis produtivos da comunidade e quanto ele tem uma duração maior do que o necessário. Então essa é a nossa régua para medir se uma emoção é adequada ou a inadequada: a intensidade e a duração. Esse medo justificável, mas teremos que seguir porque nossa vida não pode parar, mas se esse medo prejudica, ele tem de buscar ajuda.

Giro Goiás: Quais os tipos de transtornos decorrentes da pandemia do Coronavírus?

Dr. Vinicius Xavier – Os mais comuns estão relacionados a humor e a ansiedade, principalmente os transtornos de ansiedade. Porque eles surgem em situações que você não tem controle, que é exatamente o momento que estamos vivendo. Você não tem garantias de como a economia reagirá; não sabemos como a ciência vai se comportar na conduta na construção de uma vacina e disseminação dela para tratamento, não tem certeza de como será seu futuro profissional, saúde da sua família, então tudo isso gera muita ansiedade.

Neste rall também temos Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), pós traumático, de ansiedade especifica e as diversas fobias. Então a depender do indivíduo (pré disposição) ele pode desenvolver qualquer um desses transtornos de ansiedade por conta da incerteza. Outra manifestação possível é de um transtorno de humor, como por exemplo a depressão, que surge em situações aonde o indivíduo tem perdas importantes na vida e pode vir acompanhada também de uma desesperança relacionada ao futuro. Então situações como esta de um luto, perda de emprego, uma análise mais pessimista e catastrófica do futuro frente a atual situação pode gerar um transtorno de humor como uma depressão.

Giro Goiás: Estamos preparados para a pandemia de saúde mental após o coronavírus?

Dr. Vinicius Xavier – Muito vai ser demandado aos profissionais de saúde nos que diz respeito nos feitos na saúde mental pós pandemia. Os profissionais deverão ficar preparados para isso porque a procura por recursos será grande.

Giro Goiás: Alguns profissionais buscaram atender os pacientes de forma remota, essa terapia é eficaz? é capaz de detectar alguma doença psíquica remotamente?

    Dr. Vinicius Xavier – Esses atendimentos já eram uma das modalidades consolidados, tanto é que o Conselho Federal de Psicologia já há tempos formalizou essa atividade, inclusive, através de uma diretriz, existem pareceres importantes nesse tema, portanto já é uma atividade comum e consolidada.

O que aconteceu com a pandemia é que dada a necessidade da população tanto de se isolar, quanto de cuidar da sua saúde mental, esse serviço foi democratizado, passou a ser mais disseminado, anunciado, propagado. O que aconteceu, é que aqueles profissionais que não eram adeptos tiveram que aprender, flexibilizar esta prática e o tempo mostrou que muitos ficaram bastante habilidosos e conseguem fazer seus atendimentos, alguns até já repensaram suas carreiras no que tange os atendimentos online.e estão pensando seriamente e mantê-los assim.

É possível sim diagnosticar uma doença psíquica remotamente a depender da forma que o atendimento é feito; as manifestações comportamentais e o relato do paciente são bastante fidedignos e dá pra ter um bom encaminhamento, um diagnóstico e um prognóstico para tratamento. O importante nesta modalidade é seguir algumas diretrizes, no paciente, ele precisa estar num lugar sigiloso e o profissional precisa estar habilitado para extrair o melhor daquela relação e promover o melhor tratamento.

COMPARTILHE

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Compartilhar no email
Compartilhar no whatsapp